domingo, 25 de julho de 2010

Inevitável

Não posso evitar
tenho os pés cravados no presente
mas a cabeça teima em mirar o futuro
É parte do que sou
dessa essência tão sagitariana
sempre feita de sonhos
embora eu não acredite em coisas assim
diz meu ascendente, o sério Senhor Capricórnio
Dito isso, espero que você compreenda
o tamanho da minha incoerência
vivo presa nessa síndrome esquizofrênica
equilibrando opostos, harmonizando gostos
polemizando miudezas
Então, como se a explicação bastasse,
aqui me detenho: 
é tudo inevitável até que seja reescrito.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Assuntos complexos são para as segundas

Era sexta-feira
E eu iria escrever sobre Deus
Mas então veio a sombra do trabalho
Os raios de poesia em blogs à deriva
E um pouco de mim se perdeu no caminho
Procrastinei
Deus é complexo demais para uma sexta-feira.

terça-feira, 20 de julho de 2010

De volta ao telefone

Ok, 75% dos votantes na enquete sobre telefone fixo afirma ter o aparelho em casa. Por outro lado, isso significa que 25% não têm. Tudo bem, precisaríamos de muito mais gente votando para considerar esse número como representativo do país, mas digamos que já é uma boa pista. Só para constar, não, eu não votei na minha própria enquete.

Por via das dúvidas, dei uma passadinha no site da Anatel e descobri que houve sim um sensível aumento na "densidade telefônica instalada" (fixa), mas muito, muito sensível - e nada comparado à telefonia móvel. Ah, e falando em fixo, não era o tema da enquete, mas vale ressaltar que o número de telefones públicos no Brasil reduziu de 2008 para 2009. Você pode conferir os dados aqui: http://www.anatel.gov.br/Portal/exibirPortalInternet.do#

Finalizando, fica o apelo aos webdesigners e seus respectivos empregadores de plantão: não coloquem o item "telefone fixo" como obrigatório em seus cadastros. A turma dos sem-telefone-fixo agradece sinceramente.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A Lei

Não muito longe daqui, numas terras mais ao Sul (ou ao Norte, ninguém sabe ao certo), existe um país bem pequenininho, insignificante mesmo, que vive de inventar leis. Todos os dias seus prudentes habitantes reúnem-se em assembléias muito bem ordenadas e passam horas a fio buscando em sua interminável legislação qualquer falha que permita às pessoas agir de forma contrária aos preceitos sociais vigentes.


A Lei, como é chamada, diz que cada um deve contribuir com uma nova regra a cada dois dias e um terço, sendo que aquele que não der sua contribuição ficará privado de comer sorvete de chocolate por seis meses. Quem desobedece a regra e come sorvete de chocolate – o que acontece com freqüência, visto que sorvete de chocolate é um alimento muito popular naquele país – é automaticamente condenado a comer sopa de enguias por três meses no jantar. Sopa de enguias, como você bem deve imaginar, é a comida mais odiada pelos cidadãos locais, com exceção do velhinho dono da Farmácia Central, que freqüentemente quebra todas as regras só para saborear o estranho prato.

A qualidade mais apreciada nesse país tão exótico é a capacidade de memorização. Desde pequenos, seus habitantes são ensinados a decorar parágrafos imensos dos mais diversos textos. Tal habilidade mostra-se extremamente útil quando os jovens alcançam a maioridade e podem ser, enfim, penalizados por não cumprirem a Lei.

Além da memorização, a segunda disciplina ensinada nas escolas é - como não poderia deixar de ser - a Lei. De tão comprida e complexa, a Lei é ensinada aos habitantes desde a mais tenra idade, deixando pouco ou nenhum espaço para matérias como biologia, física, química, história ou matemática. O que não faz muita diferença para os cidadãos, afinal, tudo o que se pode ou não fazer no decorrer de uma vida é amplamente descrito em todas as infinitas regras da Lei. Há, por exemplo, artigos que determinam o dia e horário em que uma pessoa pode viajar para fora do país, de acordo com a primeira letra de seu nome. Alguns dizem que esta regra é totalmente desnecessária, visto que os cidadãos evitam viagens longas com medo de não conseguirem contribuir com novas regras e serem privados de seu tão adorado sorvete de chocolate.

Entre as profissões mais disputadas nesse país estão a de advogado, juiz e policial. Os dados estatísticos apurados no último censo demonstram que 35% da população é composta de advogados, 10% de juízes e 21,57% de policiais. O restante se divide em donos de pequenos estabelecimentos, professores de memorização e Lei, funcionários públicos, políticos e três cientistas.

Os cientistas formam a parcela mais incompreendida da população. De fato, quase ninguém quer ser cientista, pois é muito difícil pensar em descobrir coisas novas quando há tantas regras para serem seguidas. Diz-se, além disso, que dois dos cientistas são estrangeiros e entraram ilegalmente no país, enquanto o terceiro é filho ilegítimo de um padre do interior. Mas, como até hoje ninguém conseguiu provar patavinas, eles seguem fazendo suas pesquisas sob o olhar atento dos desconfiados cidadãos.

Um fenômeno que vem sendo alvo de intenso estudo dos cientistas atualmente é o crescente número de furtos, assaltos, assassinatos e acidentes automobilísticos no país, além de outras pequenas contravenções, como o lixo espalhado pelas ruas, a pichação de prédios e a eleição de políticos condenados pela justiça. A pesquisa ainda deve avançar por muito tempo, visto os poucos recursos destinados à ciência naquela região, mas os dados levantados até o momento já permitem um pequeno vislumbre das causas de tantas infrações.

Ao que parece, tal mudança é devida à baixa capacidade dos cidadãos de interpretar as leis. Uma tese sustentada por um dos cientistas é de que a supressão de disciplinas que incentivam o pensamento crítico nas escolas está, aos poucos, formando adultos que desconhecem o significado das palavras contidas na Lei. Assim, sem conseguir interpretá-la corretamente, os cidadãos acabam fazendo o que bem entendem – e, como nada entendem, juízes, advogados e policiais também julgam ou prendem aquele que lhes der na telha.

Atualmente, o cientista que elaborou esta tese encontra-se preso enquanto uma assembléia extraordinária reúne-se para decidir sua pena: o Sindicato dos Professores de Memorização e Lei abriu um processo contra ele por calúnia e difamação. Não se sabe ainda o que será feito do homem, visto que os jurados estão tendo alguns problemas para definir o real significado da palavra calúnia e qual a extensão do dano que pode causar. Mas, por via das dúvidas, um grupo de leais cidadãos reuniu-se na Praça Central onde montou uma fogueira pronta para ser acesa, para o caso do cientista escapar. Especula-se que ele tenha estreitas ligações com seitas demoníacas e esteja tentando trazer o caos para os habitantes do país. Há boatos de que ele promova a queima, às escondidas, de volumes inteiros da Lei. Mas são apenas boatos.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Planos odontológicos e o atendimento estilo SUS

Está sem tempo? Pule os três primeiros parágrafos.

Segundo reportagem publicada na edição 251 da revista Super Interessante, em abril de 2008, a dor de dente está entre as piores dores que um ser humano pode sentir. Se você já passou por isso, sabe bem do que estou falando. Se nunca passou, não queira jamais entender.

Nasci privilegiada. Com um sorriso bem alinhado (ah, a modéstia...), escapei do famigerado “aparelho” extraindo dentes de leite antes do tempo. Tinha uns seis anos e odiei quando a dentista deu a sentença – mas nem meu choro, nem os protestos reverteram a decisão. O que, felizmente, representou um problema a menos para resolver depois de grande.

Mas naquela época os cuidados com a primeira dentição não eram muito prioritários, digamos assim. Então, devo ter começado a escovar os dentes com regularidade lá pelos três ou quatro anos, tempo suficiente para as primeiras cáries reconhecerem o território. Aos seis anos (ou sete?) tive a oportunidade de conhecer de perto esta que é uma das piores dores que alguém poderia sentir. As cáries haviam enfim feito seu primeiro ataque. De lá pra cá, a situação só piorou, apesar das três escovações diárias, fio dental, enxaguante bucal e toda parafernália disponível para supostamente manter os dentes a salvo de seu maior vilão.

Está sem tempo? Comece a ler deste parágrafo:

Toda essa introdução foi necessária para que o provável leitor compreenda o motivo de minha felicidade ao ter à disposição um aparentemente bom e relativamente barato plano odontológico. Afinal, tratamentos dentários são caros e, no meu caso, tendem a ser recorrentes.

Tudo correu bem no início, com exceção talvez da extração dos dentes de siso, quando descobri que a maioria dos profissionais cadastrados no plano não realizava esse tipo de procedimento. Mas, procurando bem, encontrei uma. E depois outra, já que a primeira deixou de atender pelo plano odontológico um tempo depois.

Eu disse no início. O que venho percebendo ultimamente é que cada vez mais os dentistas recomendados por meus colegas de empresa estão se descadastrando do plano. E está ficando bem mais difícil conseguir marcar consultas emergenciais, por exemplo. Não interessa muito se você está sem comer, dormir ou trabalhar por causa de uma dor de dente – simplesmente não há lugar na agenda de certos dentistas para atendê-lo quando é necessário.

Outra constatação: especialistas também são raros. Em minha cidade, a maior de Santa Catarina, há apenas dois endodontistas cadastrados. Ou seja, se você precisar daquele adorável tratamento de canal, vai precisar de sorte também (tenho que abrir um parênteses para falar do empenho da profissional que me atendeu no sábado à noite para iniciar o tratamento – como resolvi não citar nomes neste post, vou manter o decidido, mas saibam que há exceções em nosso interiorano mundo).

Ah, e tem a senha, claro. Agora, para ser atendido, primeiro você faz uma avaliação no dentista, depois espera uns dias pela liberação da dita “senha”, e só então inicia o tratamento. Pergunto: se é tão difícil perceber que um paciente precisa ser atendido (pausa para um minuto de sarcasmo), não seria simples manter um sistema online para consultas em tempo real pelo dentista? Ao marcar a consulta, ele pediria o número da carteirinha e já conferiria se o paciente está em dia com suas obrigações financeiras e pode ser atendido, ora pois. Desconfio que as maravilhas da internet não tenham chegado pelas bandas de lá ainda. Sinceramente, a sensação que dá é que pagamos para ter o atendimento do SUS.

Não muito contente, mas sempre pensando que posso ser uma exceção à regra, fui consultar o Reclame Aqui – excelente site que permite a consumidores publicarem reclamações sobre empresas e dá às empresas a chance de se justificarem ou corrigirem os problemas apontados, também publicamente. Aliás, recomendo este site a todos os profissionais de recursos humanos que trabalham com gestão de benefícios, para consultar antes de contratar, lógico.

A constatação foi péssima. A empresa com mais reclamações simplesmente não se dá ao trabalho de responder aos consumidores, além dos principais planos odontológicos do Brasil terem no mínimo uma reclamação publicada. Você pode conferir a informação clicando aqui.

Mas, como nem só de decepção vivem os consumidores (e as empresas), para finalizar deixo aqui o endereço de outro site, para você cliente fiel postar sua eterna satisfação: http://www.elogieaki.com.br/

Aos amantes de planos odontológicos, por favor deixem sua defesa nos comentários deste post. Adoraria ver uma nova versão dos fatos.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Sete Vezes Sete

Sete pecados
Sete virtudes
E o equilíbrio

...

Sete notas musicais
Mil vezes sete sons diferentes
Em algum lugar a harmonia

...

Sete cores do arco-íris
Um céu que já foi azul
No armário, o casaco vermelho

...

Sete pragas do Egito
Mas a estante, velha e gasta
Só guarda o Novo Testamento

...

Sete chacras no corpo
Como num computador angelical
Que não sei operar

...

Sete dias da semana
Hoje é quarta-feira
O meio absoluto

...

Sete anos aqui
Que poderia ser qualquer lugar
E leio num texto de autor indefinido
Que sete é o número da passagem
Do conhecido ao desconhecido

Só um minuto,
Vou logo ali
Reservar meu vôo para Pasárgada

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Um candidato com coragem

Difícil falar de eleição em tempos de Copa. Com o país todo sintonizado na África do Sul, ninguém quer saber de política, propostas de governo ou afins. Feliz ou infelizmente, minhas noções sobre futebol restringem-se a umas poucas regras e o nome de alguns times de maior destaque, o que me permite pensar em assuntos mais sérios no intervalo entre os jogos da seleção canarinho.

É pena que tantos brasileiros estejam, ao menos em mente e espírito, do outro lado do oceano. Senão poderiam dar-se conta de que os candidatos não defenderão tudo aquilo que realmente acreditam nessas eleições. Nem nunca defenderam. Eleição por aqui é só um jogo de “me engana que eu gosto” para decidir, de uma forma democraticamente estúpida, quem será o próximo fantoche a nos representar.

Indignações à parte, hoje acordei otimista. Havia, enfim, encontrado um critério de desempate que me permitiria escolher em quem desperdiçar menos meu voto nesta eleição para presidente. A coragem. Iria votar – pensava eu lá pelo meio da manhã – no candidato que tivesse a coragem de apresentar propostas que não fossem meramente eleitoreiras, mas necessárias, mesmo que isso significasse ir contra uma parcela significativa da população. Um exemplo: acabar com a política de cotas nas universidades (que é totalmente inconstitucional) e apresentar um plano sério e bem estruturado de investimentos no ensino fundamental. Não vou perder muitos parágrafos aqui explicando porque criar cotas em universidades públicas é tapar o sol com a peneira, até porque já devo ter explicado mil vezes meu ponto de vista sobre o assunto – enfim, foi um exemplo.

Então – santa ingenuidade – comecei a procurar pelas propostas dos três principais candidatos à presidência e, claro, não encontrei nadinha. Lá se foi meu otimismo pelo ralo. Voltei à estaca zero. Afinal, a desinformada aqui não havia se dado conta de que primeiro os partidos precisam definir todas as alianças, sob pena de defender alguma bandeira não muito amada por seus futuros aliados. É que partido, no Brasil, não tem ideologia, e candidato também não. Se olhar bem de perto, é tudo índio da mesma taba, só mudam os caciques. E eu querendo um candidato com coragem. Vai sonhando, vai.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Pausa para uma Prosa Futebolística

Pausa para uma prosa futebolística
E eu que do assunto nada entendo
Só nos gritos de gol me adianto
Mais uma defensora nessa causa tão brasileira
Verde, amarela, azul e branca
Bola nossa de cada dia
Dai-nos hoje a alegria da vitória
Amém.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Sem telefone fixo!

Desde que o celular virou peça imprescindível ao guarda-roupa moderno e a conexão discada à internet, serviço jurássico, abri mão do telefone fixo. Já disse aqui mais de uma vez que não sou grande fã de telefones. E, além do mais, aquelas contas nunca foram muito claras, mesmo nos serviços que cobram por minutos.

De fato, tive lá minhas querelas com companhias telefônicas por faturas com valores questionáveis, e me estressa saber que não posso nem falar pessoalmente com os responsáveis pelo atendimento ao consumidor nessas empresas. Como lá em casa o único que não sai para trabalhar é o Teco, um docinho de yorkshire que ainda vou filmar e mostrar para todo mundo no YouTube, um telefone fixo, para mim, não faz a menor diferença. Realmente acredito que não faça a menor diferença para outros milhares de brasileiros também.

Mas tem gente que não pensa assim. E coloca naqueles cadastros de preenchimento obrigatório, em entidades, lojas, sites ou qualquer outro lugar que exija um registro, aquele item de preenchimento obrigatório chamado "telefone fixo". Olha, "vou te dizer pra ti" (incorporando um típico joinvilense), dá uma vontade de inventar um número qualquer... mas então vem o bom senso, e o que faço é repetir meu número de celular. Ao menos vão me encontrar quando precisarem (se é que dá para considerar isso uma boa coisa). Falando sério, essa informação pode ter sido importante há 20 anos, mas hoje?

Pior é que esses dias perdemos uma compra pela internet provavelmente por causa disso. A razão dada pela empresa para o cancelamento da venda foi "inconsistência de dados", ou seja... Azar o deles, porque fizemos a mesma compra em outra empresa, que leva mais em conta o histórico do cliente do que um número de telefone fixo.

Mas, como o mundo não gira ao redor do meu umbigo, resolvi colocar uma enquete no blog, aí do lado direito da tela, caso você ainda não tenha visto. Quando puder, preencha e ajude a descobrir quanta gente nesse mundo (ou nesse blog) ainda mantém um telefone fixo em casa - para validar, ou não, essa tendência.

terça-feira, 1 de junho de 2010

A Droga da Obediência

Disse uma certa reportagem que, após os 27, nossa memória já não é mais aquela "brastemp". Deve ser verdade, porque, além de não lembrar onde e quando vi a tal reportagem, também não consigo lembrar do nome certo do filme que vi ontem à noite - pela segunda vez. Vamos dizer que é "Código de Honra". Se não for, corrijam-me os cinéfilos de plantão. Trata-se da história de um jovem advogado da marinha norte americana, protagonizado pelo então também jovem Tom Cruise, que tenta provar a inocência de dois fuzileiros num caso de assassinato. Mas este não é o tema do filme.

Toda a história gira em torno de poder e alienação - superiores que têm suas ordens fielmente seguidas por subordinados muito bem adestrados para obedecer sem questionar. Pelo visto, este é o modelo que sempre deu certo nas forças armadas e, por algum tempo, também fora delas.

Preciso dizer que vejo com olhos desconfiados a continuidade desse sistema militar em qualquer país desenvolvido - título que espero poder dar ao Brasil num futuro próspero. Até onde obedecer sem questionar é algo assimilável por uma geração que tem toda a informação do mundo em computadores com acesso à internet em cada esquina (ou dentro da própria casa)? E, analisando sob uma ótica mais pacifista (e otimista), até onde é realmente necessário "adestrar" seres humanos ao invés de ensiná-los a pensar? Quem sabe no futuro, ao invés de guerras, tenhamos debates.

*Sobre o título do post, além de referir-se ao assunto aqui proposto, trata-se do nome de um livro do Pedro Bandeira, meu autor predileto nos tempos de pré-adolescente. Recomendo.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Cenas dos últimos capítulos

Nada de Twitter, blog, MSN, Orkut, Facebook, LinkedIn ou qualquer tipo de rede social. Eu não sabia, mas passaria a última semana sem tempo algum para interagir com minhas comunidades virtuais. Tão pouco teria oportunidade de ler jornal, escutar rádio ou assistir televisão. Os dias passaram como em um universo paralelo, e agora volto ao lar surpresa e levemente desamparada: a vida passou sem me esperar.

Ego, ego, grande e egoísta ego, como será possível as tragédias e maravilhas continuarem acontecendo sem o meu testemunho? A mente pré-geração Y (e quem sabe com um pezinho nela) não entende a lógica que cá existe. Mas deixemos de lado essas queixas – até porque quem vem chegando terá mais tempo para explaná-las – e vamos às cenas dos últimos capítulos.

De tempos em tempos sentimos necessidade de mudar. Para algumas pessoas esses intervalos são menores, para outras levam anos e, para algumas poucas, não acontecem nunca. Arrisco dizer que estas últimas ou fazem parte de um restritíssimo círculo que alcançou a paz e a felicidade supremas ou simplesmente estão resignadas à sua própria mediocridade. Mas só elas poderiam confirmar esta tese. De qualquer forma, certamente não faço parte deste grupo, pois conheci a tal necessidade de mudança em vários capítulos de minha não tão longa vida e, nos últimos tempos, ela parece brilhar em mim como um gigantesco outdoor iluminado. Mas tudo isso soa como repetição de um post escrito lá pelos idos de março, e de muitos outros em datas anteriores. Pelo visto, mudar é a minha constante.

Enfim, a semana passada foi dedicada quase que exclusivamente a esta tarefa, nem um pouco fácil e, sem dúvida alguma, ainda com muitos passos a serem dados. E digo para vocês que valeu a pena cada segundo, todas as vitórias, todas as derrotas (principalmente elas). Agora tenho que lidar com a não menos difícil tarefa de domar este turbilhão de idéias que vão tomando forma na mente, palpáveis, alcançáveis e que dão um novo sentido a este período conturbado da existência a que chamamos de vida.*

Se alguém quiser o nome do milagre, é só deixar um comentário no blog. E, last but not least, falando em cenas dos últimos capítulos, queridos fãs de Lost, o que foi aquele final? Melhor não comentar...

*Não existir não implica necessariamente em não viver. Uma pedra, por exemplo, existe, mas não tem vida. Ao menos até que alguém prove o contrário.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Para o Dia de Todas as Mães

Nesta antevéspera de Dia das Mães, resolvi escrever um poeminha para a mãe minha e todas as outras que, por destino ou escolha, exercem com perícia exemplar esse papel tão importante. Aí vai:


Mãe tinha que nascer com coração duplo
Reforçado
Que é para agüentar cada susto, joelho machucado,
Emoção contida de ver o filho crescer e ganhar o mundo
Que ela, sozinha, mal conseguiu desvendar

Mãe tinha que ser de aço!
Feito os heróis de revista em quadrinhos
Mulher superpoderosa, invencível e incansável
Com armas secretas, esconderijos e habilidades especiais

Mas acontece que mãe também é ternura, abraço apertado
Sorriso de compreensão
Coisas que precisam de suavidade para existir.
Quanta incongruência!
E, no entanto, este papel que só ela há de desempenhar
É o que a torna mais completa, incomparável e insubstituível.

Mãe é.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Os livros, Deus e a eternidade

Após uma suave e inspiradora leitura de “Comer, Rezar, Amar”, da Elisabeth Gilbert (sim, eu leio Best Sellers), resolvi começar esta semana uma jornada em sentido contrário, vasculhando “Deus, um delírio” do Richard Dawkins (tá bom, eu sei que leio muitos Best Sellers, e também sei que nem todos são tão Best assim).

Explico, mas antes quero fazer um comentário sobre o primeiro livro. Senhoras e senhoritas balzaquianas, prestes a completar 30 anos ou que já passaram dessa fase há muito tempo: leiam. Preferencialmente antes do filme chegar aos cinemas, porque o cinema, vocês sabem, é tudo de bom, mas costuma fazer amputações monstruosas em obras literárias. E não sei dizer se a Julia Roberts (dizem que ela fará o papel da protagonista) conseguirá interpretar com fidelidade a mensagem do livro – que, já adianto, nada tem a ver com passar quatro meses em um ashram na Índia. Não sabe o que é um ashram? Mais um motivo para ler “Comer, Rezar, Amar”.

Voltando ao ateísmo que começo a estudar agora – atenção religiosos, leiam até o final antes de me sentenciar à danação eterna – digamos que é uma forma de equilibrar as coisas. Tentar entender o outro lado da questão, coisa que não é muito discutida nos cantos de cá. Assisti a um documentário do Richard Dawkins sobre o ateísmo e encontrei algumas falhas, ou seja, ele não me convenceu. E tenho medo sim que o livro seja mais completo e abrangente, e me converta em uma apática defensora do não crer (acho que tenho mais medo da apatia que acompanha o ateísmo do que do ateísmo em si). Porém, não posso continuar julgando aquilo que não conheço. E, se já sobrevivi à leitura do “Evangelho Segundo Jesus Cristo”, ora pois, não devo ser tão influenciável assim. Daqui há 475 páginas comento o resultado.

A propósito, a cozinha ficou muito boa, mas a incomodação só acabou na última sexta-feira.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Um momento

Vácuo
É o pedaço de tempo espremido
Entre o fazer nada
E o ser coisa alguma
Pequena e indetectável miudeza
Vivendo neste despropósito de existência

Penso que seja o tempo de colocar o cérebro em off, reprogramar os neurônios até que a vida seja plena novamente. Caos após caos, o mundo voltaria ao seu normal - livre das bactérias do hábito, que estão sempre a infectar nossos sonhos, ofuscar os olhos e impedir que avistemos caminhos felizes, ainda que de trajetórias distintas. Penso, logo insisto (muito) em continuar. Mas este ainda é um tempo de espera.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

“Crônicas de uma Quase Dona de Casa” ou “O Fim dos Pretextos para Não Cozinhar” ou “Não Espere muito de um Serviço”

Há mais ou menos dois meses, em um dos raros episódios em que decidi usar meus adormecidos dotes culinários (leia-se pegar um pacote de pães de queijo congelados e colocar em uma fôrma) tive uma experiência inusitada. Abri o forno, girei o botão do gás e acendi o fósforo, segurando-o próximo ao queimador e, surpresa: ele não estava lá. Isso mesmo, o queimador, ou sei lá que nome tem aquele treco de onde sai o gás nos fornos caseiros, tinha sumido. Teletransporte? Magia? Coisa que apenas a insólita física quântica explica? Não, caro leitor. Ele apodreceu e caiu mesmo. E juro que fiquei surpresa, porque nunca tinha visto isso acontecer e o fogão, apesar de velho, até que mantinha uma aparência razoável por fora (se bem que eu não costumava olhar muito para ele).

O episódio afetou significativamente os hábitos alimentares aqui de casa, eliminando uma parte importante de nosso cardápio noturno, composta por aqueles alimentos congelados que só ficam bons quando assados em fornos a gás ou elétricos. Não me interprete mal. Eu gosto de cozinhar. Sério. Mas sou meio fresca com esse negócio de cozinha – preciso de muito espaço, recipientes apropriados e, principalmente, tempo. Muito tempo. Ah, também não gosto de gente demais ao redor, palpitando. Então, como a cozinha aqui de casa sempre foi uma união de móveis bem baratos, algumas doações e amontoados de caixas que não cabiam em lugar nenhum, simplesmente abdiquei do posto de “personal chef” pelo maior tempo que pude.

Mas então perdemos o forno, e os cupins que mantinham o lavador em pé já começavam a dar sinais de que iriam abandonar a luta (certo dia, uma das gavetas caiu sozinha, e as outras não estavam com cara de que iriam agüentar muito tempo). Fazendo uma análise estratégica da situação, concluímos que a tão sonhada casa nova não sairia do papel tão cedo, mas o que restava da cozinha estava prestes a nos deixar na mão se não tomássemos uma providência urgente.

Pois bem, resolvemos que, enfim, teríamos uma cozinha nova, sob medida, que acabaria com todos os nossos problemas de espaço e alimentação. Parecia fácil, rápido e indolor. Pesquisa daqui, faz um orçamento lá, logo achamos um fornecedor dentro de nossas expectativas arquitetônicas e financeiras. E foi então que a realidade começou a fazer em pedaços nosso conto de fadas doméstico.

Sinceramente, eu achava que era só tirar as medidas, acertar o projeto, pagar e pronto: móveis novinhos apareceriam feito mágica lá em casa. Não tinha a menor noção de todos os entraves que envolvem os móveis sob medida. Primeiro, há a instalação elétrica. Você não acha mesmo que aquelas duas tomadas que tem na cozinha vão chegar para mais um forno, um exaustor e todas as parafernálias futuras que um dia entrarão em sua casa. É preciso pensar em tudo, porque uma cozinha sob medida não pode ser retirada do lugar para refazer uma instalação mais tarde. Ou melhor, até pode, mas você não vai querer fazer isso.

Depois tem o encanamento. Aquela gambiarra para levar água até a lava-louça não pode mais continuar ali. Você tem que chamar um encanador ou aprender sozinho (melhor chamar o encanador) a instalar o tal do sifão, uma outra torneira (porque aquela que você tinha é baixa demais para o novo lavador), o filtro... Ah, e tem a instalação dos móveis, claro. Pensou que era só apertar um botão e eles se colocariam automaticamente no local? Sem falar no preço de tudo isso que você não tinha contabilizado. Como o granito, por exemplo, ou as banquetas da cozinha (minha cozinha era tão abandonada que não tinha mesa ou cadeiras).

Resolvidas mais estas pendengas, o problema estava quase no fim, ou era isso que a gente pensava. Sabe, eu não acredito em serviço eficiente no Brasil. Aliás, ainda não acredito em serviço eficiente em parte alguma do mundo. Mas tenho esse lado meio besta que gosta de dar uma chance para todo mundo – “todos cumprirão o que prometem até que se diga o contrário”. Refletindo sobre isso hoje de manhã, chegamos à conclusão que o melhor é não criar expectativas. Assim, se tudo der certo, a gente fica muito feliz. E, se der errado, bom, “eu avisei... “.

Explico: a tal empresa que contratamos ligou semana passada dizendo que estava tudo pronto, e poderiam instalar os móveis na segunda-feira se estivesse bom para nós. Infelizmente não estava bom para nós, então, reagendamos para hoje de manhã, oito horas. Tudo acertado, passamos o feriado retirando panelas, alimentos e materiais de limpeza da cozinha (porque a lavanderia também entrou no pacote), doamos os móveis, nosso apartamento ficou parecendo um daqueles centros de doação para famílias desabrigadas, e em dois dias, no máximo, teremos nossa vidinha de volta, muito mais confortável.

Então acordo hoje pelas sete e meia, tomo café, ligo o computador (trabalho em casa para poder receber o pessoal dos móveis), olho no relógio, oito horas, nada. Tudo bem, que cheguem oito e meia, vai, meia hora de atraso é aceitável. Mas ninguém apareceu oito e meia, nem nove horas. Nem às nove e meia, hora que a moça que atendeu o telefonema indignado disse que estariam aqui. Os móveis chegam só às dez e quinze, mas sem um detalhe fundamental: o montador. Aquele cara que pega as tábuas de mdf e transforma em armários, gavetas e outros aparatos de nomes menos conhecidos. Pois é.

Mas ele vinha de manhã, tentou se explicar o homem, só que esqueceram de agendar a entrega dos móveis. Imagina, todo mundo esquece isso, claro. Porque eu ficaria indignada? Resumo da ópera, a montagem começou às duas da tarde, e teve que parar às seis – regras do condomínio. E no meio da tarde, como para colocar uma cereja nesse bolo de gosto duvidoso, o outro cara, que fará as peças em granito, liga perguntando se já está tudo pronto e ele pode passar aqui agora à noite para medir os móveis. Detalhe: ele trabalha na mesma empresa que fez os móveis. Incompetência pouca é bobagem.

Ou seja, amanhã teremos mais um longo dia de bagunça na cozinha, que deve se estender até a próxima segunda-feira, quando finalmente tudo estará em seu devido lugar. Ou não. Agora já conto com a possibilidade do montador ter outro serviço agendado para segunda, afinal o nosso era para terminar sexta. Moral da história: todo mundo cumpre o que promete na hora de vender, mas pouquíssimos conseguem manter a promessa na hora de entregar. Com exceção talvez do nosso eletricista, que superou todas as nossas expectativas no que diz respeito a prazos. Segunda moral da história? A gente pode até se incomodar muito, mas no final sempre tem história para contar. Desejem-me sorte amanhã.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Essência

Sou mais poesia do que prosa, embora a ordem contrária trouxesse mais beleza a esta frase por algum critério mágico que desconheço. Ando assim, mulher das cavernas, atribuindo ao divino tudo aquilo que tenho preguiça de pesquisar. Coisas da estação, não me pergunte, esta é outra verdade sobrenatural.

Tem a ver com a forma como as palavras jorram na mente e buscam semelhanças, fazem cócegas querendo sair para criar logo o belo a partir de uma folha vazia. As rimas surgem, cada uma delas com vida independente, e sigo unindo-as em casamentos nem sempre felizes, a fim de expressar aquelas idéias que tanto me angustiam. Algumas vezes não são elas – as idéias angustiantes – que provocam o matrimônio das rimas. Também faço dos momentos breves longas uniões de palavras, em prol da beleza e apenas dela.

"É da minha natureza", como diria o escorpião naquela história que talvez você conheça, ser mais emoção do que razão. Em meu dicionário interno, classifico a poesia como algo emotivo e imensurável, mais semelhante à minha essência do que seria uma prosa com início, meio e fim.

E agora espero que esta explicação sirva para encerrar o texto, que afinal não se trata apenas de prosa, mas de pensamento que gostaria, ainda que com uma rima tão pobre, de ter nascido poesia.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Abrindo as cortinas

Agora sim, gostei. Ficou "bunitinho" esse laioute com cara de manhã-de-sábado-de-sol-num-dia-de-outono. (Desculpem, algumas vezes meu ego é maior que eu - então, se não gostar, limite-se aos textos. E, se não gostar dos textos, caramba, tá fazendo o quê aqui? Azar, porque eu gostei).

P.S.: Eu sei que não tem nada a ver com lixeira. Mas lixeira foi um nome catado às pressas da memória e acabou ficando porque não descobri como mudar. E agora mudar seria estranho, a gente se acostuma depois de tanto tempo. Enfim, dizem que o importante é ter saúde...

terça-feira, 13 de abril de 2010

Conselho

Você vai precisar de coragem. Anote aí, bem fundo, deixe impresso na alma. E não é daquela suposta coragem dos filmes de ação, regida a socos e pontapés, que melhor se pode chamar de brutalidade. Talvez um dia você precise da brutalidade, mas isso é só um talvez bem pequenininho. Do que você vai precisar mesmo é de coragem para dizer não para quem ama, quando queria tanto dizer sim. Coragem para ser julgado, rejeitado e absurdamente mal interpretado.

Também vai precisar perder o medo de dizer sim quando a oportunidade chegar. Ela pode acontecer uma única vez em sua vida. E você terá que pular nesse cavalo arisco, agarrar-se a seus pelos obstinadamente tentando manter-se firme enquanto ele corre ligeiro por pastos desconhecidos, ou perdê-lo para sempre. Mas aqui você sempre poderá culpar o destino, as linhas tortas de Deus que fizeram o cavalo rápido demais. É preciso menos coragem para dizer sim do que para dizer não.

Você vai precisar de coragem para encarar a solidão. E não se iluda: você está sozinho. Isso não significa que não haja pessoas importantes ao redor, aquelas com quem você divide suas preciosas horas. Mas elas não podem pensar ou agir por você. Tão pouco decidir ficar ao seu lado até que tudo para você tenha acabado. Não porque não queiram: simplesmente, por uma lógica difícil de decifrar, não cabe a elas decidir.

Pare de armazenar comida e comece a guardar coragem. Recolha-a nas pequenas dificuldades e nos heróis desconhecidos, cate nas ruas, dos mendigos que já sabem tanto de solidão, peça um pouco dos milionários bem sucedidos e daqueles que viveram um grande amor, não tenha medo de emprestar das famílias felizes – elas serão as últimas a dizer não. Faça um armário bem grande e encha com tudo que conseguir, CORAGEM, muita coragem. Você vai precisar.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Feira do Livro

Tenho que me retratar. Há pouco tempo deixei um comentário no Twitter meio que ironizando a Feira do Livro de Joinville (SC), promovida agora, no mês de abril. Não acreditava nela. Achei que seria mais um daqueles eventos “engana bobo” que as prefeituras por aqui gostam (ou gostavam) de promover.

Explico: faz alguns anos visitei uma dita feira do livro na cidade, no mesmo lugar da atual, e o que encontrei foram exposições de sobras de livros – aqueles que ninguém compra, ou pela baixa qualidade do conteúdo, ou por falta de divulgação, ou por serem segmentados demais e distantes da realidade do povo mais simples, ou por tudo isso junto e mais alguma coisa. Na verdade, vi mais de uma edição nesse estilo e perdi a fé na capacidade de promover a cultura do(s) governo(s) desta cidade.

Como falar é fácil e assumir um fato como verdade absoluta mais ainda, este final de semana decidi ver esta edição da Feira de perto, o que se mostrou uma ótima decisão. O que vi foram diversos estandes, com livros para todos os públicos – dos best sellers aos técnicos, passando por boas coleções de livros infantis (além das promoções e descontos nos estandes - quem não gosta de pagar menos?). Fora isso, havia o bate-papo com escritores, teatro para as crianças, tudo em tendas montadas na praça, próximo ao terminal de ônibus central, facilitando e muito o acesso para quem depende dos ônibus urbanos.

Claro, esse foi o ponto de vista de uma visitante, num sábado tranqüilo e descompromissado. Espero que a organização, que pareceu tão boa para quem vê de fora, tenha surtido o mesmo impacto em quem está lá dentro promovendo seu negócio. Afinal, queremos todos de volta ano que vem, e que seu exemplo traga ainda mais estandes para a Feira, com a variedade e qualidade que a maior cidade de Santa Catarina merece.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Ando catastrófica, eu sei. Conseqüências da leitura recente de um certo livro de contos do Stephen King. Mas a remessa de literatura feliz deve chegar nas próximas semanas, o que costuma ter um sensível efeito nos rumos da minha prosa.